SESP avança em tecnologia de prevenção à violência doméstica com uso de dados e inteligência artificial
Na última segunda-feira (01/12), a Secretaria da Segurança Pública do Paraná (SESP) realizou o Seminário de Dados e Inteligência Artificial na Segurança Pública para apresentar o desenvolvimento da tecnologia Algoritmo de Revitimização de Violência Doméstica. A ferramenta tem como objetivo criar um algoritmo através de IA capaz de estimar o risco de revitimização de mulheres com histórico de agressão. O projeto, articulado com a colaboração de Laura Schiavon, diretora e cofundadora do Leme, está sendo desenvolvido pelo Centro de Análise, Planejamento e Estatística (CAPE/SESP) em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Participaram do encontro Laura Schiavon, Emanuele Maria de Oliveira Siqueira, titular da Delegacia da Mulher da Capital; o tenente-coronel Todisco, chefe do CAPE; a capitã Carolina, coordenadora da Patrulha Maria da Penha; e o 2º sargento Reginaldo, coordenador de Geotecnologia da SESP. Os representantes apresentaram suas perspectivas institucionais sobre a integração de dados, os desafios operacionais no atendimento às mulheres em situação de violência e as potencialidades da nova tecnologia no fortalecimento das ações de prevenção. O seminário também reuniu os pesquisadores Ísis Lira e Matheus Nascimento, do Leme, que integram a equipe responsável pelo desenvolvimento do modelo.
Ao longo da reunião, os pesquisadores detalharam etapas do processo de construção da ferramenta, discutindo métodos de análise de risco, desafios operacionais e possibilidades de aplicação do algoritmo no planejamento das ações de proteção às mulheres. As apresentações ressaltaram como a consolidação de bases integradas de dados e o uso de técnicas avançadas de modelagem podem aprimorar a capacidade do estado em identificar situações de maior vulnerabilidade e orientar respostas mais qualificadas por parte das forças de segurança.
Segundo Laura Schiavon, um dos principais ganhos da tecnologia está na capacidade de orientar a atuação das forças de segurança de forma mais precisa. “O algoritmo permite aumentar em até 50% a probabilidade de que equipes da Patrulha Maria da Penha visitem mulheres em situação de alto risco, quando comparado a uma alocação aleatória ou baseada apenas na data da ocorrência. Esse é o avanço central da ferramenta”, afirmou.
Como funciona a tecnologia
A construção da ferramenta exigiu um processo robusto de organização e qualificação da base de dados reunidas pelo estado. O trabalho integrou mais de 15 milhões de boletins de ocorrência e consolidou, em uma única base analítica, informações do FONAR, IML, mandados de prisão, medidas protetivas de urgência, botão do pânico e demais registros do BOU. Nessa essa etapa, a equipe avaliou a qualidade e o preenchimento de informações, identificando pontos de melhorias e propondo ajustes, como a adoção do CPF como identificador padrão e a obrigatoriedade de registrar o grau de relação entre a vítima e o agressor nos casos de violência doméstica.
“Com a consolidação dessa base, pudemos avançar para análises descritivas sobre o perfil das mulheres revitimizadas e identificar variáveis relevantes para o risco de novas agressões. A partir desse conjunto, testamos diferentes modelos estatísticos até chegar a uma versão do algoritmo que consideramos tecnicamente sólida e apta a apoiar políticas de proteção mais focalizadas”, afirmou Ísis Lira, pesquisadora do Leme e integrante da equipe responsável pelo desenvolvimento da tecnologia.
Entre as variáveis incorporadas ao modelo estão informações do FONAR que ajudam a caracterizar o contexto de risco, como:
Uso de drogas ou álcool pelo agressor;
Dependência financeira da vítima;
Presença de filhos;
Situação de desemprego;
Acesso a arma de fogo;
Coabitação entre vítima e agressor;
De acordo com o secretário da Segurança Pública do Paraná, coronel Hudson Leôncio Teixeira, a iniciativa representa um ganho significativo para a política enfretamento à violência no estado.
“Essa tecnologia trará muitos benefícios. Iremos ampliar a capacidade que temos de prever uma possível reincidência do agressor, qualificar o atendimento policial e, principalmente, fortalecer a rede de proteção às mulheres”, afirmou o secretário, destacando a conexão do sistema com o Programa Mulher Segura, implementado pela atual gestão.
Segundo os pesquisadores, o algoritmo será incorporado a um dashboard unificado, concebido para organizar informações críticas em um formato acessível e confiável. A plataforma permitirá que equipes policiais visualizem dados de forma integrada, fortalecendo a capacidade de resposta em casos urgentes e aprimorando o planejamento das ações de prevenção.
Com essa etapa concluída, a tecnologia avança para sua fase piloto, que testará a aplicação prática do sistema no dia a dia das operações de segurança pública. A implementação ocorrerá ao longo de 2026, sob coordenação do CAPE/SESP e apoio do BID. Ao incorporar técnicas de previsão e análise de risco, a iniciativa marca um passo importante no fortalecimento das políticas de proteção às mulheres e no uso estratégico de dados para orientar decisões públicas.